Frankestein é terror, mas é sobre nossos laços sociais.

Posted on Sat 02 May 2020 in textos

Frankenstein

A premissa de se assustar ou se horrorizar com as contratos sociais que são quebrados não apela muito pras minhas interpretações. A vontade de se ultrapassar, de se achar grande é uma caracteristica narcisica muito forte de quem se define demais pelo seu intelecto e pelas suas obras. Victor Frankenstein com certeza é um retrato do homem moderno que perdura até hoje nos circulos academicos e profissionais. Tive professores que eram demasiadamente imersos na urgência produtivista que assola o modus operandi do academia brasileira. Enquanto outros eram totalmente contra essa urgência e se focavam em estudos e contribuições academicas "efetivas" e duradouras. Ambos sofriam dessa febre de uma ideia de fascinio tecnicista de produzir algo. Por si só, isso não é um problema quando as implicações éticas são minimas.

O que não é o caso de Frankenstein. O horror da historia tem como pano de fundo o nome de toda uma familia, não sobre Victor Frankestein apenas. Victor é um ser constituido de uma ousadia intelectual e de pouco apreço por amizades comuns. Muito centrado socialmente no seu nucleo familiar, um unico amigo fora desse circulo, sua prima prometida, seus irmãos mais novos, seu pai... todas as pessoas do seu tecido social lhe tem em alta estima e desejo. O querem para si, com todo amor, amizade e apreço. Chega até a ser enfadonho, pra ser sincero. Muito do que se lê no livro é sobre esses vinculos, estimas, saudades, desejos de bem estar, de bem querer... junto com descrições longas de naturezas monumentais da Suiça, Inglaterra, ou qualquer lugar por onde o protagonista caminhe e viaje. Coisas que com frequencia, ao longo do livro, quando Victor é acometido de melancolia e tristeza, o tiram desse estado e o colocam em um estado de ânimo e felicidade.

No entanto, mesmo com todas essa abundancia de afetos, Victor tem pouca reciprocidade a esses circulos. Fascinado pelos estudos sobre alquimia, sai de casa e migra pra Ingolstadt, na Bavária, no intuito de estuda-la. No entanto, ora por repreensao, ora por acolhimento, migra pras ciencias quimicas. Acaba imerso em teorias sobre o funcionamento do corpo humano e é assolado por uma idéia, que ele mesmo depois reconhece como enferma, de criar um ser vivo, com ideais e aparencia belas. Esse combustível o impulsiona a um acesso de noites e dias virados, as claras, incontáveis, doentis e frenéticas que o levam a constituir uma criação fracassada, que por outros motivos, acaba por ser sua ruina.

Refletindo sobre esse acesso específico de Victor, não consigo deixar de associar esse seu momento frenético de trabalho do mundo produtivista da tecnologia da informação em que vivo. Hackatons, crunchs, jams. Sprints, ciclos, processos. Tudo muito amarrado a um intuito de entrega e produtividade. Não vou colocar aqui as questões trabalhistas que essas praticas implicam, mas é sempre bom observar que ao contrario de Victor, movido por motivações individuais, quem tem esse trabalho tecnico geralmente a presta por motivações de outrem. Mas que o ego individualista e narcisico não é desvinculado e é um atributo comum nos circulos de profissionais de tecnologia. O descaso pelos vinculos humanos é um dos atributos que quem tem o minimo de vivência na área, ja esbarrou com inumeros seres aversos a conversas não técnicas e com opiniões desprezíveis sobre outros seres humanos.

Dada essa observação, é curioso que a obra, o monstro, seja idealizado com aparencia angelical e tamanho colossal. O fracasso da empreitada é exatamente a não efetivação desse ideal, uma monstruosa criação que lhe gera imediata repulsa, tão avassaladora a ponto de lhe causar mal-estar psiquico. Mal-estar este que, novamente, so é recobrada com a visita de um amigo estimado. Esses episodios de recaimento psiquico são constantes durante toda a obra e sempre são quase sempre remediadas por amplas visões de belezas naturais ou pela presença de pessoas centrais na vida social de Victor.

Por outro lado, observa-se como o monstro é desde o nascimento abandonado e a repulsa lhe é companheira por todo o romance. Eventualmente temos os relatos de vivencia e de desenvolvimento dos sentidos, da consciencia e dos valores nobres que o monstro acaba por constituir, milagrosamente, em uma vivência solitaria, apenas pela observação de relações afetuosas entre outros seres humanos. Apesar de ansioso por construir tais vinculos, ao monstro é constantemente negada qualquer tipo de humanidade. E aqui acho extremamente relevante o fato do monstro nem sequer ter nome. Quando vamos no imaginario pop, e com todas as constituições imageticas do "dêmonio Frankenstein", nós atribuimos o nome do criador a obra. Mas ele é inominável e abnominável. Essa é a parte mais interessante e doída ao ler a obra: o anseio de humanidade negada. O monstro, ao ver seu reflexo num rio, se da conta de sua aparencia horrenda e que seu desejo por contato humano, amizade e vida social é impossivel. Essa vontade de pertencimento, de uma vivência cheia de amor, acolhimento, amizades lhe escapa pela sua abominação, não seus valores nobres, anseio de fazer o bem ou qualquer outro sinonimo de relações humanas normativas. Ao longo do livro ele é referenciado por adjetivos e substantivos carregados de valores negativos. E nisso, todo esse desejo e negação de desejo o levam a cultivar um ódio a humanidade e enfim ao criador. E é daí pra frente que a trama se desenrola; em torno desse unico afeto que lhe é possivel ser entregue do seu criador.

Frankenstein

Dada esse laço entre criatura e criador, é muito interessante perceber o quanto Victor é alvo desse ódio exatamente por que os acolhimentos e vivencias plenas de vinculo humano lhe foram dadas como certas desde a infância, lhe possibilitando inclusive se afastar delas para perseguir ambições narcisistas. O monstro ansiava por isso, inclusive por parte de seu criador, mas como lhe foi negado desde sempre, o rancor pela existencia lhe foi tomada e direcionada a quem ele julgou culpado.

Acho que o livro leva a refletir sobre nossos laços, como eles são breves e sujeitos a rupturas inesperadas, e que na verdade, apesar de da-las como certas, elas nao o são. Devemos cultivá-las como uma planta que necessita de agua e adubo para poder, se não prosperar, pelo menos sobreviver por circunstâncias que sejam atipicas. E é muito triste imaginar a negação dessa vivência. Creio que as pessoas passem, pelo menos em algum momento da vida, pela repulsa ou desamparado. É lembrando desse sentimento que temos que saber acolher, inclusive aqueles acometidos por ódio solitários.

Não incluo nessa fachos.

Frankenstein